A Menina Desaparecida - 8
Quando despertou, Clara percebeu que o dia estava anoitecendo.
Apesar de não conseguir ver o sol ou a lua, sentiu o vento da noite
penetrar-lhe, e assim deduziu que a noite chegara.
Benet ainda dormia, com a respiração leve, com a face
esperançosa. Clara pensou em como as coisas haviam mudado. Há dois dias atrás
estava tendo uma vida normal, com a mesma rotina de sempre e agora estava numa
situação de medo, insegurança, deitada no chão de uma espécie de caverna,
apenas com um menino de aparência estranha, que agora se tornara seu melhor
amigo..
A menina ficou pensando em como seria se Benet não tivesse
aparecido. Ela precisava do menino mais que tudo agora, precisava da sua voz,
do seu companheirismo. Precisava do seu calor, da respiração dele perto da sua.
Definiu-o seu irmão mais novo. Esperava nele, encontrar força e esperança,
porque sozinha não conseguiria.
***
Momentos depois da devaneia de Clara, Benet acordou.
Esfregando os olhos, e bocejando, ouviu um barulho estranho, mas aliviou-se
quando percebeu que era seu estômago roncando pela fome. Procurou a mochila em
sua volta e achou-a perto de Clara, agarrou-a e olhou para a menina com o olhar
preocupado.
- Aconteceu alguma coisa durante meu cochilo?
- Não, eu não dormi muito e resolvi ficar acordada, vigiando.
Conseguiu descansar?
- Um pouco, o suficiente para continuarmos durante algumas
horas, aliás, tem ideia de que horas são agora?
- Acredito que a noite já entrou. Sinto o seu vento. – Clara
murmurou com os olhos fechados.
- Nossa, eu não sei distinguir vento do dia com vento da
noite. O vento que sentimos, nosso povo, é um vento abafado, sem muito
entusiasmo, se é que me entende. – O garoto
disse um pouco ruborizado, como se tivesse achado que Clara não entenderia.
- Entendo, vocês sempre viveram no subterrâneo, o vento não
circula. Mas talvez, como sou acostumada com o ar da superfície consigo
diferenciar os dois. – Disse suavemente, para que Benet a compreendesse. –
Benet, você ficará muito animado quando chegarmos ao meu mundo. É
surpreendente.
- Acredito que seja. Já ouvi histórias a respeito dele, mas
não consigo ter uma imaginação fiel sobre ele.
- Você verá... – Clara disse sorrindo – Agora, coma um pouco,
para prosseguirmos. – E arrancando um pequeno pedação de seu pão, Benet o
mastigou lentamente, aproveitando o pouco tempo de prazer que obtinha ao comer.
***
Quando saíram do esconderijo, começaram a caminhar
apressadamente. Uma hora ou outra, paravam para descansar e tomar fôlego. Durante
uma das paradas, Clara disse que queria descansar um pouco mais, pois estava
sentindo dores na cabeça. Benet concordando com um gesto, parou e sentou
embaixo de uma clareira recheada de espinhos cautelosos.
- Benet, acabei esquecendo de fazer uma pergunta que tenho
muita curiosidade.
- Pergunte.
- Como surgiu seu povo, e quem é Scantam?
- Bom, meu povo se chama Scatin. Como deve ter percebido o
próprio nome é derivado do Senhor Scantam. Nosso povo é submisso a ele,
trabalhamos em troca de alimento e segurança. Scantam nos chama de servos, seus
servos. Ele ainda diz que somos pequenos seres desprezíveis e que não valemos
muita coisa. Mas que por enquanto somos úteis, ao menos até suas novas criações
serem concluídas. Não sabemos quem são essas criaturas ao certo, apenas que
existem algumas dessa espécie e que vivem nas Colinas Scantam. Devem ser seres
horripilantes, acredito eu. – Com um silêncio, Benet parou de falar para tomar
fôlego e prosseguiu – O fato é, um dia infelizmente, meu povo se extinguirá.
Todos sabemos disso, e vivemos normalmente esperando algo acontecer. Já faz
mais de dois séculos desde a primeira geração. Assim que essa nova espécie
estiver concretizada, a minha espécie não existirá mais. – E com os olhos lacrimejando, Benet concluiu
infeliz.
- Sinto muito Benet. – Clara disse tocando o ombro do amigo –
Então, Scantam é dono de tudo isso? Ele pode ser considerando o “rei” de tudo?
- Sim, ele prefere o pronome “Majestade” – Benet riu ao falar
isso – Ele é abusivo e cruel, mal nos dá o que comer e nos trata rispidamente,
sem argumentos para isso.
- Já odeio esse tal de Scantam. O que sabe mais sobre ele?
- Ah, não muito. Apenas que ele é um feiticeiro poderoso,
capaz de criar novas criaturas, como eu disse, já deve ter percebido que eu, sou uma criação dele. Todo meu povo
é. – Benet falou revirando os olhos.
- É. Hmm, ele é capaz de gerar um humano?
- Não, mas pretende fazer isso futuramente. Não sei como, mas
é o que ele deseja mais sagazmente. Talvez, você seja um indício disso.
Clara o olhou aterrorizada, endireitando os pensamentos que
abusavam dela.
- Não diga isso, por favor. Se for, eu não estarei mais aqui
daqui algum tempo, espero que seja o suficiente para ele não me encontrar.
- Agora, nos encontrar, sabe-se lá o que ele fará comigo assim
que nos achar, mas sejamos positivos, isso não vai acontecer, eu espero.
“Isso não vai acontecer”, Clara pensou astutamente. E sem mais
perguntas, levantou e fez um sinal para que continuassem a jornada.
***
Em certos momentos, ouviram sons de passos, ou sombras
acinzentadas, da cor dos olhos de Benet, aproximando-se, envolvendo-os. Clara
imaginou que fosse o medo a iludindo, assustando-a e fazendo-a visualizar
coisas que talvez não existissem.
Perguntou a Benet se ele estava vendo o mesmo que ela, e o
garoto assentiu balançando a cabeça. No momento seguinte, sentiu uma onda de arrepios
percorrer seu corpo e sua mente. Algo como uma brisa gelada e estonteante que a
envolvia, apertando-a, sacudindo-a dolorosamente. Conseguiu mover sua cabeça
para a lateral e viu Benet se remexendo, igual a ela, mas não conseguiu ver
nada ao redor dele. Por um segundo pensou que o garoto estava apenas
espreguiçando-se, mas quando ele a olhou apavorado, percebeu que não era
ilusão, ele estava sendo atordoado que nem ela, por cordas e mãos invisíveis.
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