sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Scatim

                       A Menina Desaparecida - 8


Quando despertou, Clara percebeu que o dia estava anoitecendo. Apesar de não conseguir ver o sol ou a lua, sentiu o vento da noite penetrar-lhe, e assim deduziu que a noite chegara.
Benet ainda dormia, com a respiração leve, com a face esperançosa. Clara pensou em como as coisas haviam mudado. Há dois dias atrás estava tendo uma vida normal, com a mesma rotina de sempre e agora estava numa situação de medo, insegurança, deitada no chão de uma espécie de caverna, apenas com um menino de aparência estranha, que agora se tornara seu melhor amigo..
A menina ficou pensando em como seria se Benet não tivesse aparecido. Ela precisava do menino mais que tudo agora, precisava da sua voz, do seu companheirismo. Precisava do seu calor, da respiração dele perto da sua. Definiu-o seu irmão mais novo. Esperava nele, encontrar força e esperança, porque sozinha não conseguiria.
                               
                                      ***
Momentos depois da devaneia de Clara, Benet acordou. Esfregando os olhos, e bocejando, ouviu um barulho estranho, mas aliviou-se quando percebeu que era seu estômago roncando pela fome. Procurou a mochila em sua volta e achou-a perto de Clara, agarrou-a e olhou para a menina com o olhar preocupado.
- Aconteceu alguma coisa durante meu cochilo?
- Não, eu não dormi muito e resolvi ficar acordada, vigiando. Conseguiu descansar?
- Um pouco, o suficiente para continuarmos durante algumas horas, aliás, tem ideia de que horas são agora?
- Acredito que a noite já entrou. Sinto o seu vento. – Clara murmurou com os olhos fechados.
- Nossa, eu não sei distinguir vento do dia com vento da noite. O vento que sentimos, nosso povo, é um vento abafado, sem muito entusiasmo, se é que me entende.  – O garoto disse um pouco ruborizado, como se tivesse achado que Clara não entenderia.
- Entendo, vocês sempre viveram no subterrâneo, o vento não circula. Mas talvez, como sou acostumada com o ar da superfície consigo diferenciar os dois. – Disse suavemente, para que Benet a compreendesse. – Benet, você ficará muito animado quando chegarmos ao meu mundo. É surpreendente.
- Acredito que seja. Já ouvi histórias a respeito dele, mas não consigo ter uma imaginação fiel sobre ele.
- Você verá... – Clara disse sorrindo – Agora, coma um pouco, para prosseguirmos. – E arrancando um pequeno pedação de seu pão, Benet o mastigou lentamente, aproveitando o pouco tempo de prazer que obtinha ao comer.
                                      ***
Quando saíram do esconderijo, começaram a caminhar apressadamente. Uma hora ou outra, paravam para descansar e tomar fôlego. Durante uma das paradas, Clara disse que queria descansar um pouco mais, pois estava sentindo dores na cabeça. Benet concordando com um gesto, parou e sentou embaixo de uma clareira recheada de espinhos cautelosos.
- Benet, acabei esquecendo de fazer uma pergunta que tenho muita curiosidade.
- Pergunte.
- Como surgiu seu povo, e quem é Scantam?
- Bom, meu povo se chama Scatin. Como deve ter percebido o próprio nome é derivado do Senhor Scantam. Nosso povo é submisso a ele, trabalhamos em troca de alimento e segurança. Scantam nos chama de servos, seus servos. Ele ainda diz que somos pequenos seres desprezíveis e que não valemos muita coisa. Mas que por enquanto somos úteis, ao menos até suas novas criações serem concluídas. Não sabemos quem são essas criaturas ao certo, apenas que existem algumas dessa espécie e que vivem nas Colinas Scantam. Devem ser seres horripilantes, acredito eu. – Com um silêncio, Benet parou de falar para tomar fôlego e prosseguiu – O fato é, um dia infelizmente, meu povo se extinguirá. Todos sabemos disso, e vivemos normalmente esperando algo acontecer. Já faz mais de dois séculos desde a primeira geração. Assim que essa nova espécie estiver concretizada, a minha espécie não existirá mais.  – E com os olhos lacrimejando, Benet concluiu infeliz.
- Sinto muito Benet. – Clara disse tocando o ombro do amigo – Então, Scantam é dono de tudo isso? Ele pode ser considerando o “rei” de tudo?
- Sim, ele prefere o pronome “Majestade” – Benet riu ao falar isso – Ele é abusivo e cruel, mal nos dá o que comer e nos trata rispidamente, sem argumentos para isso.
- Já odeio esse tal de Scantam. O que sabe mais sobre ele?
- Ah, não muito. Apenas que ele é um feiticeiro poderoso, capaz de criar novas criaturas, como eu disse, já deve ter percebido que eu, sou uma criação dele. Todo meu povo é. – Benet falou revirando os olhos.
- É. Hmm, ele é capaz de gerar um humano?
- Não, mas pretende fazer isso futuramente. Não sei como, mas é o que ele deseja mais sagazmente. Talvez, você seja um indício disso.
Clara o olhou aterrorizada, endireitando os pensamentos que abusavam dela.
- Não diga isso, por favor. Se for, eu não estarei mais aqui daqui algum tempo, espero que seja o suficiente para ele não me encontrar.
- Agora, nos encontrar, sabe-se lá o que ele fará comigo assim que nos achar, mas sejamos positivos, isso não vai acontecer, eu espero.
“Isso não vai acontecer”, Clara pensou astutamente. E sem mais perguntas, levantou e fez um sinal para que continuassem a jornada.
                                      
                                        ***
Em certos momentos, ouviram sons de passos, ou sombras acinzentadas, da cor dos olhos de Benet, aproximando-se, envolvendo-os. Clara imaginou que fosse o medo a iludindo, assustando-a e fazendo-a visualizar coisas que talvez não existissem.

Perguntou a Benet se ele estava vendo o mesmo que ela, e o garoto assentiu balançando a cabeça. No momento seguinte, sentiu uma onda de arrepios percorrer seu corpo e sua mente. Algo como uma brisa gelada e estonteante que a envolvia, apertando-a, sacudindo-a dolorosamente. Conseguiu mover sua cabeça para a lateral e viu Benet se remexendo, igual a ela, mas não conseguiu ver nada ao redor dele. Por um segundo pensou que o garoto estava apenas espreguiçando-se, mas quando ele a olhou apavorado, percebeu que não era ilusão, ele estava sendo atordoado que nem ela, por cordas e mãos invisíveis. 

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