terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Kaily


                          A Menina Desaparecida - 9


Os dois começaram a se debater, lutando contra as pegajosas sombras que não se dissipavam, apesar da desenvoltura deles. Tentando gritar, Benet e Clara abriam a boca, mas não conseguiam mais do que um grunhido sufocado. Eles olhavam um para o outro, mas não conseguiam ver nada! Apenas sentiam. Sentiam que estavam sendo torturados, amassados, envoltos pelo terror. Mas então um barulho único e estridente tomou conta do ambiente e tudo ficou silencioso.
Clara caiu no chão dolorosamente, como se tivesse sido prensada contra ele. Fechou os olhos, apertando-os impulsivamente, e sentiu sua respiração ofegante. Percebeu que não havia mais nada atormentando-a, apenas a sensação dolorosa que ainda tomava conta de seu corpo. Suspirou aliviada, e virou a cabeça para olhar para Benet.
O garoto encontrava-se no chão também, respirando com dificuldade. Ele estava paralisado, com medo de que se se movesse, a dor aumentaria. Tentou virar a cabeça, mas não conseguiu. Clara notou que ele estava mais distante do que da última vez que o vira antes de cair, mas se esforçando, rastejou até o menino, para ajudá-lo.
Quando chegou perto dele, ofegante e ainda com dores pelo corpo, Clara sussurrou no ouvido de Benet – Está tudo bem, não tem mais nada aqui. Agora tente respirar devagar, e tente se mover. – O menino fez o que Clara pediu e logo se mexeu pacientemente. Respirou fundo e conseguiu erguer-se.
- O que foi aquilo? Acho que se você não tivesse vindo até mim e falado que estava tudo bem, eu teria ficado imóvel não sei por quanto tempo... – O garoto começou a falar rapidamente. – Obrigado Clara.
Então Benet aproximou-se e abraçou a menina que tinha o confortado com tão poucas palavras. Clara retribuiu o abraço carinhosamente e disse “Estamos juntos, Benet”.
Ainda com muito medo e assustados, os dois amigos prosseguiram a viagem. Eles não tinham ideia do que eram aquelas sombras que haviam os atacado. Eles só queriam sair daquele lugar logo.
Benet num momento pensativo, pensou nos pais, no povo, e no pouco conforto e segurança que tinha na sua aldeia. Refletiu e disse para si mesmo “Eles estão bem. Ficarão preocupados, mas ficarão bem. Eu preciso ir até o mundo de Clara, preciso de um novo lar para mim e para minha família, prometo a mim mesmo, se der tudo certo, eu volto para buscá-los”.
- O que foi aquilo, realmente? Você não conhece nada que já tenha atacado o seu povo? – Clara perguntou quebrando o silêncio.
- Não que eu saiba. Tudo que te contei anteriormente foram conversas de meu pai com minha mãe, e algumas coisas que eu ouvia escondido dos cantos da cidade.
- Precisamos encontrar alguma coisa para nos defender, Benet. Não sobreviveremos a um próximo ataque. Seja lá o que aquelas coisas são, já sabem da minha existência e da nossa fuga. E o... Scantam vai mandá-los novamente atrás de nós! – Clara com a expressão dura, exclamou a Benet.
- Sim, precisamos achar alguma arma, feitiço, sei lá. Precisamos de algo que nos mantenham vivos. Mas... Espera! Acho que sei a quem podemos pedir ajuda. – E com um salto de esperança, Benet começou a puxar Clara pela mão, apressadamente.
                              
                                              ***
Sem entender o entusiasmo e a repentina exaltação de Benet, Clara o seguiu a passos rápidos. E quando não conteve mais a curiosidade, a menina parou instantaneamente e com um puxão no casado de Benet, ela disse:
- Benet, por favor, me explica onde estamos indo? Quem pode nos ajudar?
- Ta bom... É o seguinte, uma vez minha mãe contou para mim uma história sobre uma feiticeira, que se não me engano se chama... Kaily. Essa feiticeira é muito poderosa, e ela trabalha para o Scantam, em troca de favores. Porém, ela também negocia com outras pessoas. Qualquer tipo de criatura, desde que em troca de seu poder, ela receba algo muito valioso. Acho que ela pode nos ajudar! – O garoto exclamou ansioso.
- Também acho, mas não temos nada para dar em troca dos seus feitiços. Ela não aceita algo, como... trabalhos serventes por algum tempo? Sei lá, poderíamos servi-la por alguns dias e como pagamento ela nos empresta algo que seja útil para nos defendermos.
- Sua ideia é ousada, mas não acredito que Kaily vá nos emprestar seu poder em troca de alguns trabalhos domésticos. – Benet falou pensativo.
Clara percebeu o quão maduro seu mais novo amigo era. Ele sabia lidar com situações perigosas sem se apavorar. Além de ser muito inteligente, Benet era astuto e corajoso.
- Nunca perguntei, quantos anos você tem Benet?
- 12, por quê? – O menino perguntou interessado com a mudança de assunto repentina de Clara.
- Nada não, apenas curiosidade. Você parece mais velho do que realmente é.
- Não é a primeira que diz isso. Todos dizem que sou maduro para minha idade. Eu gosto disso. –Benetcontou, orgulhoso de si mesmo.
- Enfim, você acha que estamos muito longe dessa tal de Kaily?
- Acho que não, uma hora no máximo – Benet falava para Clara, examinando o mapa que tinha pego de seu pai. – Conforme o que minha mãe me disse, o lugar onde a feiticeira Kaily mora, é perto da Superfície Escura – O garoto apontou para o local. – Estamos... perto.
                                        
                                            ***
Logo após algum tempo de caminhada, os dois chegaram a uma planície arruinada. O lugar era enevoado, e tinha paredes rochosas de cor marrom, além de pequenas árvores subterrâneas, que tinham espinhos ao invés de folhas. O lugar era assustador. Apenas o barulho do farfalhar do vento abafado era ouvido, e alguns sussurros intimadores, algo como pequenos pés se movimentando desajeitadamente.
Os dois viram alguns vultos pretos se locomovendo de um lado para o outro, mas aliviaram-se quando viram que eram apenas suas silhuetas nas paredes de pedra.
Seguiram constantemente, de vez em quando olhando para trás, tendo a impressão de que estavam sendo seguidos por alguém. Benet estava tremendo, ele tentava não demonstrar à Clara o medo que sentia por estar perto da Superfície Escura. Ele ainda não havia contado o que sabia sobre ela para a menina, e percebeu que teria de fazê-lo mais cedo ou mais tarde.

Os dois prosseguiram cada vez mais lentamente, até chegarem perto de uma imensa parede de mármore cor de grafite que se estendia dos dois lados para o alto. Eles não conseguiam ver o fim dela, mas imaginaram que era bem alto.


Colada na parte mais baixa do mármore, próximo a altura de Clara, estava uma placa do formato de um losango, não era muito grande e parecia antiga. Benet passou a mão nela e retirou o pó que havia. Sentiu a textura áspera da pedra queimar a sua mão de tão gélida. Quando terminou de tirar a poeira, Clara conseguiu decifrar as palavras que estavam escritas na placa:




E com um grito abafado Clara percebeu que finalmente, eles haviam chegado à casa da poderosa Feiticeira Kaily.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Scatim

                       A Menina Desaparecida - 8


Quando despertou, Clara percebeu que o dia estava anoitecendo. Apesar de não conseguir ver o sol ou a lua, sentiu o vento da noite penetrar-lhe, e assim deduziu que a noite chegara.
Benet ainda dormia, com a respiração leve, com a face esperançosa. Clara pensou em como as coisas haviam mudado. Há dois dias atrás estava tendo uma vida normal, com a mesma rotina de sempre e agora estava numa situação de medo, insegurança, deitada no chão de uma espécie de caverna, apenas com um menino de aparência estranha, que agora se tornara seu melhor amigo..
A menina ficou pensando em como seria se Benet não tivesse aparecido. Ela precisava do menino mais que tudo agora, precisava da sua voz, do seu companheirismo. Precisava do seu calor, da respiração dele perto da sua. Definiu-o seu irmão mais novo. Esperava nele, encontrar força e esperança, porque sozinha não conseguiria.
                               
                                      ***
Momentos depois da devaneia de Clara, Benet acordou. Esfregando os olhos, e bocejando, ouviu um barulho estranho, mas aliviou-se quando percebeu que era seu estômago roncando pela fome. Procurou a mochila em sua volta e achou-a perto de Clara, agarrou-a e olhou para a menina com o olhar preocupado.
- Aconteceu alguma coisa durante meu cochilo?
- Não, eu não dormi muito e resolvi ficar acordada, vigiando. Conseguiu descansar?
- Um pouco, o suficiente para continuarmos durante algumas horas, aliás, tem ideia de que horas são agora?
- Acredito que a noite já entrou. Sinto o seu vento. – Clara murmurou com os olhos fechados.
- Nossa, eu não sei distinguir vento do dia com vento da noite. O vento que sentimos, nosso povo, é um vento abafado, sem muito entusiasmo, se é que me entende.  – O garoto disse um pouco ruborizado, como se tivesse achado que Clara não entenderia.
- Entendo, vocês sempre viveram no subterrâneo, o vento não circula. Mas talvez, como sou acostumada com o ar da superfície consigo diferenciar os dois. – Disse suavemente, para que Benet a compreendesse. – Benet, você ficará muito animado quando chegarmos ao meu mundo. É surpreendente.
- Acredito que seja. Já ouvi histórias a respeito dele, mas não consigo ter uma imaginação fiel sobre ele.
- Você verá... – Clara disse sorrindo – Agora, coma um pouco, para prosseguirmos. – E arrancando um pequeno pedação de seu pão, Benet o mastigou lentamente, aproveitando o pouco tempo de prazer que obtinha ao comer.
                                      ***
Quando saíram do esconderijo, começaram a caminhar apressadamente. Uma hora ou outra, paravam para descansar e tomar fôlego. Durante uma das paradas, Clara disse que queria descansar um pouco mais, pois estava sentindo dores na cabeça. Benet concordando com um gesto, parou e sentou embaixo de uma clareira recheada de espinhos cautelosos.
- Benet, acabei esquecendo de fazer uma pergunta que tenho muita curiosidade.
- Pergunte.
- Como surgiu seu povo, e quem é Scantam?
- Bom, meu povo se chama Scatin. Como deve ter percebido o próprio nome é derivado do Senhor Scantam. Nosso povo é submisso a ele, trabalhamos em troca de alimento e segurança. Scantam nos chama de servos, seus servos. Ele ainda diz que somos pequenos seres desprezíveis e que não valemos muita coisa. Mas que por enquanto somos úteis, ao menos até suas novas criações serem concluídas. Não sabemos quem são essas criaturas ao certo, apenas que existem algumas dessa espécie e que vivem nas Colinas Scantam. Devem ser seres horripilantes, acredito eu. – Com um silêncio, Benet parou de falar para tomar fôlego e prosseguiu – O fato é, um dia infelizmente, meu povo se extinguirá. Todos sabemos disso, e vivemos normalmente esperando algo acontecer. Já faz mais de dois séculos desde a primeira geração. Assim que essa nova espécie estiver concretizada, a minha espécie não existirá mais.  – E com os olhos lacrimejando, Benet concluiu infeliz.
- Sinto muito Benet. – Clara disse tocando o ombro do amigo – Então, Scantam é dono de tudo isso? Ele pode ser considerando o “rei” de tudo?
- Sim, ele prefere o pronome “Majestade” – Benet riu ao falar isso – Ele é abusivo e cruel, mal nos dá o que comer e nos trata rispidamente, sem argumentos para isso.
- Já odeio esse tal de Scantam. O que sabe mais sobre ele?
- Ah, não muito. Apenas que ele é um feiticeiro poderoso, capaz de criar novas criaturas, como eu disse, já deve ter percebido que eu, sou uma criação dele. Todo meu povo é. – Benet falou revirando os olhos.
- É. Hmm, ele é capaz de gerar um humano?
- Não, mas pretende fazer isso futuramente. Não sei como, mas é o que ele deseja mais sagazmente. Talvez, você seja um indício disso.
Clara o olhou aterrorizada, endireitando os pensamentos que abusavam dela.
- Não diga isso, por favor. Se for, eu não estarei mais aqui daqui algum tempo, espero que seja o suficiente para ele não me encontrar.
- Agora, nos encontrar, sabe-se lá o que ele fará comigo assim que nos achar, mas sejamos positivos, isso não vai acontecer, eu espero.
“Isso não vai acontecer”, Clara pensou astutamente. E sem mais perguntas, levantou e fez um sinal para que continuassem a jornada.
                                      
                                        ***
Em certos momentos, ouviram sons de passos, ou sombras acinzentadas, da cor dos olhos de Benet, aproximando-se, envolvendo-os. Clara imaginou que fosse o medo a iludindo, assustando-a e fazendo-a visualizar coisas que talvez não existissem.

Perguntou a Benet se ele estava vendo o mesmo que ela, e o garoto assentiu balançando a cabeça. No momento seguinte, sentiu uma onda de arrepios percorrer seu corpo e sua mente. Algo como uma brisa gelada e estonteante que a envolvia, apertando-a, sacudindo-a dolorosamente. Conseguiu mover sua cabeça para a lateral e viu Benet se remexendo, igual a ela, mas não conseguiu ver nada ao redor dele. Por um segundo pensou que o garoto estava apenas espreguiçando-se, mas quando ele a olhou apavorado, percebeu que não era ilusão, ele estava sendo atordoado que nem ela, por cordas e mãos invisíveis. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A Fuga

                                         A Menina Desaparecida  - 7

 
Tudo estava pronto para a fuga. Benet tinha ido em silêncio para sua casa pegar alguns utensílios necessários para a viagem. Dois pães, dois cantis abastecidos com água e um papel dobrado que Clara não tinha como ver o que estava escrito.

Quando Benet retornou ansioso para a cabana, soltou as coisas na cama e disse:

- Foi o que consegui arranjar, em tão pouco tempo, espero que sirva.

- Está ótimo! Mas não pensamos em uma coisa: como chegamos até o mundo exterior? – Clara perguntou lembrando-se do principal detalhe.

- Aqui. – Benet mostrou o papel dobrado que trazia consigo. – Meu pai tem vários desses. Ele é coordenador geral da tribo e por isso tem várias cópias desse mapa. Acredito que seja o caminho para o seu mundo. – O menino falou confiante.

O papel era amarelado como o bilhete que tinha recebido. O mapa nele desenhado parecia simples, mas um sentimento intenso a invadiu quando o viu.


 Os lugares pareciam comuns, apesar de parecer que seria uma longa viagem. Ao que constatava, teriam de passar pela Superfície Escura, atravessar a Fronteira Cristal e ir para o “MS”, que ao que indicava seria “Mundo Superior”. Alguns símbolos estavam inseridos, mas nem Clara nem Benet sabiam o que significavam.

- Bom, espero que esse seja o mapa certo. Vamos Benet, daqui a pouco acordarão e não podemos ser vistos. – E com um leve clique na porta da casa, Clara e Benet ficaram expostos à escuridão.

 

                                         ***

A passos silenciosos e rápidos, os dois caminharam para a saída da pequena cidade. Benet os conduzia, e logo conseguiram chegar ao seu primeiro objetivo, sair do vilarejo.

Quando estavam a mais ou menos duas quadras da saída, conseguiram ver luzes acenderem. Perceberam que o povo estava acordando. Sem hesitar Clara disse que deveriam aumentar a velocidade dos passos para chegarem a um local seguro. Concordando com um gesto, Benet a seguiu.

Logo se viram bem distantes da cidade e puseram-se a descansar.

- Estou cansado e com fome. – Benet disse de cabeça baixa. – Vamos comer?

- Concordo com você. Vamos parar aqui, comer alguma coisa e descansar um pouco. – Clara disse parando e sentando-se.

Benet tirou os dois pães do saco de dentro da mochila que trazia, e entregou um à Clara. A menina pegou-o, mas decidiu quebrá-lo em quatro partes.

- Não sabemos quanto tempo essa viagem irá durar, então é melhor economizarmos. – Benet que tinha começado a comer o pão inteiro já, parou imediatamente quando pensou que Clara estava mais do que certa. Como já tinha comido ¼ do pão,  cortou-o em três partes e os guardou de volta no saco.

Enquanto Clara comia sua parte, ficou pensando e como as coisas em casa estavam. Imaginou seus pais chorando, preocupados, esperando ela voltar... Sentiu uma lágrima quente escorrendo por seu rosto e abaixou a cabeça.

                                        ***

Dois dias desde o desaparecimento de Clara tinham se passado. Ao contrário do que ela pensava, seus pais estavam a procurando freneticamente. E seu pai, que antes estivera irritado, agora deixava a preocupação o abranger. A mãe continuava aos prantos, contendo-se para não sair correndo atrás da filha.

Os dois, agora com aparência cansada, pareciam, se é que não ficavam, dias sem dormir. As olheiras nos olhos, a face enrugada pela tristeza. George e Clarissa só queriam a sua pequena de volta, e deixar as coisas nas mãos da polícia da cidade estava deixando-os nervosos e enraivecidos.

Infelizmente, eles não podiam fazer nada além de esperar. A saída de qualquer cidadão do vilarejo era proibida. Apenas as autoridades máximas podiam transitar livremente pelos arredores da cidade.

Eles queriam dizer à Clara o quanto a amavam agora. Mas não podiam fazer nada além de esperar e rezar por sua filha.

 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Benet


Acordando com o barulho de alguém batendo a porta, Clara viu que ainda era cedo, não passava da madrugada. Abrindo os olhos lentamente observou que um pequeno vulto acinzentado estava atrás da cortina que tinha na parede. Apesar de o quarto não ter janelas, cortinas eram necessárias para dar ao ambiente um aspecto aconchegante, o que era difícil. A garota pulou da cama quando viu o vulto se mover e parou na frente da porta o banheiro para espiar melhor.

Clara reparou que o vulto era uma criança. Uma criança travessa e esperta, que naquele momento estava murmurando xingamentos e se enrolando na cortina atrapalhada.

A menina não pôde deixar de sorrir. Lembrou-se de sua prima Constantine, que era muito apegada a ela, sempre que ia visitá-la, agarrava Clara e não a soltava mais. Angustiada, Clara lutou para que aqueles pensamentos fossem embora e voltou a se concentrar na criança atrás da cortina.

Um gemido de alívio foi ouvido, e Clara arregalou ainda mais os olhos quando percebeu, que finalmente a criança iria sai detrás da cortina.

Uma pequena cabeça surgiu do tecido branco. Olhos assustados e brilhantes encontraram os de Clara e os dois ficaram se olhando durante alguns minutos, sem se moverem, respirando calmamente.

A criança tinha os mesmos olhos acinzentados dos homens anteriores. Mas a aflição e o medo sobressaíam daqueles olhos esperançosos. Percebendo que não havia perigo, o pequeno menino, que agora Clara identificava ser um menininho, saiu do esconderijo e aproximou-se da garota. O garoto era pequeno, batia no peito de Clara e tinha aparência semelhante a dos outros, porém muito mais jovial. Orelhas grandes e pontudas estavam coladas a sua cabeça e um sorriso travesso surgiu de sua boca, quando a criança decidiu falar:

- Olá! Prazer em conhecê-la moça. Sou Benet, o filho caçula da família Charivaz. – O menino apresentou-se se curvando e quase caiu quando o fez.

Clara deixou escapar uma risada engraçada. O garoto a olhou com relevância, e esperou a resposta para seu cumprimento.

- Olá! Meu nome é Clara. Eu venho... de cima. – Benet a olhou curioso e logo começou a fazer perguntas:

- O que você está fazendo aqui? Como é esse lugar de onde você vem? Você é parente de alguém daqui?...

- Não. – Clara o interrompeu. – Não sou parente de ninguém. Eu não sei por que estou aqui. Eu estava numa casa, e quando vi tinha caído num buraco. Então, seu povo me pegou e me trouxe para cá. – O menino ouviu tudo com atenção, e Clara prosseguiu. – Você. Você pode me ajudar a sair daqui. – Entusiasmada ela olhou para Benet, esperando que ele concordasse.

- Olha Clara, eu até posso te ajudar, mas eu teria de fazer um sacrifício, e esse sacrifício seria trair a minha raça e minha família. Ninguém sabe que estou aqui, é proibido entrar neste lugar. Radan reuniu toda a tribo e avisou que quem entrasse, pagaria caro. – O garoto parou, tomou fôlego e continuou. – Como anteriormente, meu povo nunca desobedeceu as ordens de Radan, então ele concluiu que não era necessário deixar vigias na porta. Sendo assim, resolvi desobedecer as ordens daquele velho antipático, e aqui estou.

Clara ficou impressionada com a coragem de Benet, e ainda percebeu que Radan, era o homem velho que falou com ela horas atrás.

Ela pensou diferente quando soube que o garoto teria que trair a confiança de seu povo para ajudá-la. Mas então, pensou em sua própria família, no quanto eles deveriam estar preocupados e apavorados. Sem hesitar, Clara disse:

- Benet, sei que trair seu povo e me ajudar a sair é um pedido muito audacioso. Mas, eu também tenho uma família, e ela deve estar muito preocupada comigo. Eu te imploro Benet, por favor, ajude-me a ir embora. – Clara suplicou a Benet que a ajudasse. O garoto mordeu o lábio com os olhos baixos e logo os levantou dizendo:

- Eu vou te ajudar Clara. Apesar de tudo, é meu sonho conhecer o mundo acima do meu. Agora, você terá que prometer que me apresentará a esta nova dimensão de mundo. – Com os olhos brilhando, o menino esperou que Clara aceitasse a condição.

- Tudo bem, em troca de você me tirar daqui, eu te levo ao meu mundo. – E com um aperto de mãos, os dois selaram a promessa.

 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Inimigos

Zonza, como se tivesse batido a cabeça em alguma coisa, Clara despertou do sono perturbado. Olhando para os lados, conseguiu ver uma área plana e extensa. Cabanas pequenas estavam enfileiradas uma do lado da outra e percorriam uma linha até o centro, onde se encontrava uma grande mesa redonda, que continha uma caixa de metal no meio dela. A caixa reluzia e faiscava, mas nada além disso acontecia.
Quando olhou para si mesma, percebeu que suas mãos e pés estavam atados a uma corda firme, que se estendia até uma árvore ressecada perto dela. Clara ainda zonza, cambaleou ao se levantar, e quando isso aconteceu, a corda na qual estava presa, esticou-se, e com isso uma espécie de alarme a sucedeu.
Vindo correndo na direção da menina, estava uma criatura pequena, igual a um humano, porém com grandes olhos acinzentados, barba comprida e orelhas enormes, que ultrapassavam a cabeça e com o andar saltitante. O pequeno homenzinho aproximou-se de Clara, rápido como um vulto e verificou se sua presa estava bem amarrada.
Analisando cada detalhe das cordas presas à menina e concluindo que tudo estava firme e seguro, ele voltou-se correndo para o local de onde tinha saído. Passados alguns minutos, Clara ouviu passos próximos e olhou a sua frente. O mesmo homenzinho que viera verificar as cordas estava voltando, mas agora acompanhado de outro homem. Este novo sujeito era idêntico ao primeiro, porém a expressão em sua face era mais dura e ríspida, além de ser um pouco mais alto que o outro. A criatura com o olhar rígido começou a observar Clara com curiosidade e logo se pronunciou:
- Qual seu nome garota? – O pequeno homem na qual Clara não tinha manifestado medo, e sim tranquilidade, tinha uma voz grossa, firme e respeitosa. Enquanto falava, a expressão em seu rosto era de sofrimento, mas ao mesmo tempo de orgulho.
- Clar...ra – gaguejou a menina.
- Muito bem Clara. É você mesmo que o senhor Scantam procura. A grande felizarda. – A criatura proclamou em tom zombeteiro. Mesmo não sabendo quem era Scantam, Clara enrijeceu-se e ficou aflita. – Bilad, vá avisar ao Conselho que a garota acordou e amanhã estará pronta. – O homem que acompanhava o sujeito rigoroso, e que agora tinha o nome de Bilad, saiu correndo para o centro, fez uma reverência para a caixa que ali se encontrava e continuou a correr para sua direita até desaparecer em uma tenda mais afastada das outras. A tenda era rosada e dentro dela, vultos pretos se moviam. Clara retirou seus olhos do homem que fora, e agora encarava os grandes olhos acinzentados do que parecia ser o chefe do Conselho. Não aguentando mais, perguntou:
- Onde estou? O que vão fazer comigo? Quem são vocês? – Clara disse com a voz rouca e seca por ficar tanto tempo sem falar.
- Fique quieta menina! Não me faça perder a paciência. Ter te buscado já foi um sacrifício. – O homem exclamou irritado.
Clara abaixou a cabeça lentamente e começou a se sentir constantemente confusa e tonta. Quando se moveu, cambaleou e quase caiu, porém sentiu mãos a segurando para que não se espatifasse no chão. Apoiando-se em dois homenzinhos, a garota foi levada para um aposento. Ainda tonta, mas estável, ela ouviu o chefe-conselheiro dizer – Deem comida e bebida à menina! Não podemos entregá-la assim para o chefe, temos ordens para trata-la bem. – Clara sentiu um arrepio em todo o corpo quando ele disse as palavras “Não podemos entrega-la assim para o chefe”.
Minutos depois, sentiu uma pessoa, menor que as demais chegar perto dela e estender-lhe um prato com pão assado e empadas de peixe, acompanhado de um copo com suco de alguma fruta com o cheiro fortemente doce. A menina não havia percebido quanto tempo se passara e tinha esquecido da fome. Quando sentiu o delicioso aroma quente daqueles alimentos, com os olhos brilhando, sem hesitar, Clara tomou os alimentos na mão e começou a saboreá-los com prazer. O suco no qual tinha achado enjoativo, agora refrescava sua boca numa sensação indescritível.
Satisfeita com a refeição que tinha recebido, Clara procurou a criança que tinha lhe servido, para agradecer, mas ela não estava mais lá. Ainda percebeu que o aposento que antes estava repleto de pessoas curiosas, agora estava silencioso e vazio. Todos haviam se retirado e trancado a porta da cabana. Levantando-se, a menina reparou que em cima da cama que tinha sido preparada para ela dormir, encontrava-se uma roupa: um vestido rosa claro que ia até os joelhos com compridas mangas. O vestido era bordado com uma renda delicada, e parecia ter sido feito à mão. Nos pés da cama estava um par de sapatilhas pretas delicadas.
Jogado no chão, como que voado da cama, tinha um bilhete amarelado:
         
 

Atordoada e chorando, Clara começou a se perguntar por que isso acontecera com ela. E levantando-se de um salto, ela foi fazer o que haviam mandado.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Pedido de divulgação 1 !

Ei pessoal, quem gostou e quiser divulgar minha fic, eu gradeceria MUITO!

Um Novo Mundo


Já passaram das 20h George! Onde ela está? – A mãe de Clara disse exaltada e apavorada para o marido.

- Eu não sei Clarissa. Essa menina vai pagar pelo sofrimento que nos causa! Ah, quando ela chegar... – George falou furioso para a esposa. – Já perguntei aos vizinhos se a viram, mas nada! Nem sinal dessa criança.

- É a nossa criança, nossa filha! Nossa única filha, George. Precisamos procurá-la. Precisamos fazer o possível para encontrá-la. – Aos prantos, Clarissa sentou-se na cadeira encostada na mesa da cozinha e começou a soluçar devagar, com as mãos cobrindo o rosto amargurado. George aproximou-se dela e ajoelhou-se ao seu lado.

- Eu prometo que farei o possível, querida. Farei o que estiver ao meu alcance, não se preocupe! – George falou, tentando confortar a esposa.

          

                               ***

Enquanto no vilarejo tranquilo, as coisas estavam tensas e preocupadas por seu sumiço, Clara acordava, com a cabeça latejando freneticamente.

O lugar onde se encontrava era úmido, escuro e com cheiro de brisa da água. Ela imaginou estar em uma espécie de caverna subterrânea, e que havia água por trás daquelas paredes rochosas. Algumas gotas pendiam das elevações das rochas. “Tem muita água atrás dessas paredes”, pensou quando estava se levantando. Com dores em todo o corpo, Clara gemeu, mas fez um esforço para erguer-se e ficar de pé.

Quando conseguiu ficar totalmente ereta, espreguiçou-se, e percebeu que sua pele estava escurecida e os cabelos desgrenhados. “Que lugar é esse?” Estremecendo pelo frio, Clara começou a se perguntar como aquilo tinha acontecido. Como se saía daquele lugar, como voltava para casa e como fazia para esquecer aquela cabana na qual tinha estado momentos ou horas atrás. Respirando fundo e devagar, contendo-se para manter a calma e não se desesperar. Delirar naquele momento não era o mais recomendado.

Sem perceber, Clara notou que lágrimas corriam por seu rosto. A menina não notara que a angústia se manifestara, que a dor e o medo permaneciam nela. Enxugando as lágrimas com as costas da mão, ela dirigiu-se para a frente, onde andando mais além, observou uma placa:
 
 

 
Clara pensou que não estava em uma estrada, mas sim em um campo arenoso e feito de rochas e pedras. De certa forma, estava certa. O caminho em que se encontrava era amplo, mas não era um campo, e sim uma estrada íngreme. Clara não tinha percebido, mas as rochas que tinha visto, as paredes na qual tinha deduzido serem de uma caverna, eram nada mais, nada menos que paredes feitas de espelho que refletiam as rochas do lado direito e faziam com que a estrada parecesse maior! Ao reparar nisso, ela emitiu um grito abafado, mas se conteve ao pensar na sorte que teve em não se chocar naquela parede espelhada.
Voltando olhar para a placa, Clara viu que duas ruas mais íngremes do que a que estava, se encontravam. A placa não dava informações sobre elas, mas uma ficava na sua direita e a outra na esquerda. Olhando ao fundo das duas passagens, só conseguia se ver a linha reta e estreita que desaparecida no fundo.
Ela se perguntou qual das duas deveria seguir, mas hesitou ao decidir entrar na da direita. Recuando passo por passo, Clara se virou e pensou “Não seja tola, entrar numa rua desconhecida e estranha não vai te tirar daqui”, disse a si mesma, “Vou ficar aqui e esperar mais um pouco”. Decidindo isso, Clara sentou-se no chão de terra coberto por pedregulhos e encostou-se na placa suja. “Alguém vai aparecer, alguém vai me...”, mas quando ia terminar de concluir sua frase, ela ouviu uma risada estridente, que soava como terror em seus ouvidos.