A Menina Desaparecida - 9
Os dois começaram a se debater, lutando contra as pegajosas
sombras que não se dissipavam, apesar da desenvoltura deles. Tentando gritar,
Benet e Clara abriam a boca, mas não conseguiam mais do que um grunhido
sufocado. Eles olhavam um para o outro, mas não conseguiam ver nada! Apenas
sentiam. Sentiam que estavam sendo torturados, amassados, envoltos pelo terror.
Mas então um barulho único e estridente tomou conta do ambiente e tudo ficou
silencioso.
Clara caiu no chão dolorosamente, como se tivesse sido
prensada contra ele. Fechou os olhos, apertando-os impulsivamente, e sentiu sua
respiração ofegante. Percebeu que não havia mais nada atormentando-a, apenas a
sensação dolorosa que ainda tomava conta de seu corpo. Suspirou aliviada, e
virou a cabeça para olhar para Benet.
O garoto encontrava-se no chão também, respirando com
dificuldade. Ele estava paralisado, com medo de que se se movesse, a dor
aumentaria. Tentou virar a cabeça, mas não conseguiu. Clara notou que ele
estava mais distante do que da última vez que o vira antes de cair, mas se
esforçando, rastejou até o menino, para ajudá-lo.
Quando chegou perto dele, ofegante e ainda com dores pelo
corpo, Clara sussurrou no ouvido de Benet – Está tudo bem, não tem mais nada
aqui. Agora tente respirar devagar, e tente se mover. – O menino fez o que
Clara pediu e logo se mexeu pacientemente. Respirou fundo e conseguiu
erguer-se.
- O que foi aquilo? Acho que se você não tivesse vindo até mim
e falado que estava tudo bem, eu teria ficado imóvel não sei por quanto
tempo... – O garoto começou a falar rapidamente. – Obrigado Clara.
Então Benet aproximou-se e abraçou a menina que tinha o
confortado com tão poucas palavras. Clara retribuiu o abraço carinhosamente e
disse “Estamos juntos, Benet”.
Ainda com muito medo e assustados, os dois amigos prosseguiram
a viagem. Eles não tinham ideia do que eram aquelas sombras que haviam os
atacado. Eles só queriam sair daquele lugar logo.
Benet num momento pensativo, pensou nos pais, no povo, e no
pouco conforto e segurança que tinha na sua aldeia. Refletiu e disse para si
mesmo “Eles estão bem. Ficarão preocupados, mas ficarão bem. Eu preciso ir até
o mundo de Clara, preciso de um novo lar para mim e para minha família, prometo
a mim mesmo, se der tudo certo, eu volto para buscá-los”.
- O que foi aquilo, realmente? Você não conhece nada que já
tenha atacado o seu povo? – Clara perguntou quebrando o silêncio.
- Não que eu saiba. Tudo que te contei anteriormente foram
conversas de meu pai com minha mãe, e algumas coisas que eu ouvia escondido dos
cantos da cidade.
- Precisamos encontrar alguma coisa para nos defender, Benet.
Não sobreviveremos a um próximo ataque. Seja lá o que aquelas coisas são, já
sabem da minha existência e da nossa fuga. E o... Scantam vai mandá-los
novamente atrás de nós! – Clara com a expressão dura, exclamou a Benet.
- Sim, precisamos achar alguma arma, feitiço, sei lá.
Precisamos de algo que nos mantenham vivos. Mas... Espera! Acho que sei a quem
podemos pedir ajuda. – E com um salto de esperança, Benet começou a puxar Clara
pela mão, apressadamente.
***
Sem entender o entusiasmo e a repentina exaltação de Benet,
Clara o seguiu a passos rápidos. E quando não conteve mais a curiosidade, a
menina parou instantaneamente e com um puxão no casado de Benet, ela disse:
- Benet, por favor, me explica onde estamos indo? Quem pode
nos ajudar?
- Ta bom... É o seguinte, uma vez minha mãe contou para mim
uma história sobre uma feiticeira, que se não me engano se chama... Kaily. Essa
feiticeira é muito poderosa, e ela trabalha para o Scantam, em troca de
favores. Porém, ela também negocia com outras pessoas. Qualquer tipo de
criatura, desde que em troca de seu poder, ela receba algo muito valioso. Acho
que ela pode nos ajudar! – O garoto exclamou ansioso.
- Também acho, mas não temos nada para dar em troca dos seus
feitiços. Ela não aceita algo, como... trabalhos serventes por algum tempo? Sei
lá, poderíamos servi-la por alguns dias e como pagamento ela nos empresta algo
que seja útil para nos defendermos.
- Sua ideia é ousada, mas não acredito que Kaily vá nos
emprestar seu poder em troca de alguns trabalhos domésticos. – Benet falou
pensativo.
Clara percebeu o quão maduro seu mais novo amigo era. Ele
sabia lidar com situações perigosas sem se apavorar. Além de ser muito inteligente,
Benet era astuto e corajoso.
- Nunca perguntei, quantos anos você tem Benet?
- 12, por quê? – O menino perguntou interessado com a mudança
de assunto repentina de Clara.
- Nada não, apenas curiosidade. Você parece mais velho do que
realmente é.
- Não é a primeira que diz isso. Todos dizem que sou maduro
para minha idade. Eu gosto disso. –Benetcontou, orgulhoso de si mesmo.
- Enfim, você acha que estamos muito longe dessa tal de Kaily?
- Acho que não, uma hora no máximo – Benet falava para Clara,
examinando o mapa que tinha pego de seu pai. – Conforme o que minha mãe me
disse, o lugar onde a feiticeira Kaily mora, é perto da Superfície Escura – O
garoto apontou para o local. – Estamos... perto.
***
Logo após algum tempo de caminhada, os dois chegaram a uma
planície arruinada. O lugar era enevoado, e tinha paredes rochosas de cor
marrom, além de pequenas árvores subterrâneas, que tinham espinhos ao invés de
folhas. O lugar era assustador. Apenas o barulho do farfalhar do vento abafado
era ouvido, e alguns sussurros intimadores, algo como pequenos pés se
movimentando desajeitadamente.
Os dois viram alguns vultos pretos se locomovendo de um lado
para o outro, mas aliviaram-se quando viram que eram apenas suas silhuetas nas
paredes de pedra.
Seguiram constantemente, de vez em quando olhando para trás,
tendo a impressão de que estavam sendo seguidos por alguém. Benet estava
tremendo, ele tentava não demonstrar à Clara o medo que sentia por estar perto
da Superfície Escura. Ele ainda não havia contado o que sabia sobre ela para a
menina, e percebeu que teria de fazê-lo mais cedo ou mais tarde.
Os dois prosseguiram cada vez mais lentamente, até chegarem
perto de uma imensa parede de mármore cor de grafite que se estendia dos dois
lados para o alto. Eles não conseguiam ver o fim dela, mas imaginaram que era
bem alto.
E com um grito abafado Clara percebeu que finalmente, eles haviam
chegado à casa da poderosa Feiticeira Kaily.



