Já passaram das 20h George! Onde ela está? – A mãe de Clara
disse exaltada e apavorada para o marido.
- Eu não sei Clarissa. Essa menina vai pagar pelo sofrimento
que nos causa! Ah, quando ela chegar... – George falou furioso para a esposa. –
Já perguntei aos vizinhos se a viram, mas nada! Nem sinal dessa criança.
- É a nossa criança, nossa filha! Nossa única filha, George.
Precisamos procurá-la. Precisamos fazer o possível para encontrá-la. – Aos
prantos, Clarissa sentou-se na cadeira encostada na mesa da cozinha e começou a
soluçar devagar, com as mãos cobrindo o rosto amargurado. George aproximou-se
dela e ajoelhou-se ao seu lado.
- Eu prometo que farei o possível, querida. Farei o que
estiver ao meu alcance, não se preocupe! – George falou, tentando confortar a
esposa.
***
Enquanto no vilarejo tranquilo, as coisas estavam tensas e
preocupadas por seu sumiço, Clara acordava, com a cabeça latejando
freneticamente.
O lugar onde se encontrava era úmido, escuro e com cheiro de
brisa da água. Ela imaginou estar em uma espécie de caverna subterrânea, e que
havia água por trás daquelas paredes rochosas. Algumas gotas pendiam das
elevações das rochas. “Tem muita água atrás dessas paredes”, pensou quando
estava se levantando. Com dores em todo o corpo, Clara gemeu, mas fez um
esforço para erguer-se e ficar de pé.
Quando conseguiu ficar totalmente ereta, espreguiçou-se, e
percebeu que sua pele estava escurecida e os cabelos desgrenhados. “Que lugar é
esse?” Estremecendo pelo frio, Clara começou a se perguntar como aquilo tinha
acontecido. Como se saía daquele lugar, como voltava para casa e como fazia
para esquecer aquela cabana na qual tinha estado momentos ou horas atrás. Respirando
fundo e devagar, contendo-se para manter a calma e não se desesperar. Delirar
naquele momento não era o mais recomendado.
Sem perceber, Clara notou que lágrimas corriam por seu rosto.
A menina não notara que a angústia se manifestara, que a dor e o medo
permaneciam nela. Enxugando as lágrimas com as costas da mão, ela dirigiu-se
para a frente, onde andando mais além, observou uma placa:
Clara pensou que não estava em uma estrada, mas sim em um
campo arenoso e feito de rochas e pedras. De certa forma, estava certa. O
caminho em que se encontrava era amplo, mas não era um campo, e sim uma estrada
íngreme. Clara não tinha percebido, mas as rochas que tinha visto, as paredes
na qual tinha deduzido serem de uma caverna, eram nada mais, nada menos que
paredes feitas de espelho que refletiam as rochas do lado direito e faziam com
que a estrada parecesse maior! Ao reparar nisso, ela emitiu um grito abafado,
mas se conteve ao pensar na sorte que teve em não se chocar naquela parede
espelhada.
Voltando olhar para a placa, Clara viu que duas ruas mais
íngremes do que a que estava, se encontravam. A placa não dava informações
sobre elas, mas uma ficava na sua direita e a outra na esquerda. Olhando ao
fundo das duas passagens, só conseguia se ver a linha reta e estreita que
desaparecida no fundo.
Ela se perguntou qual das duas deveria seguir, mas hesitou ao
decidir entrar na da direita. Recuando passo por passo, Clara se virou e pensou
“Não seja tola, entrar numa rua desconhecida e estranha não vai te tirar
daqui”, disse a si mesma, “Vou ficar aqui e esperar mais um pouco”. Decidindo
isso, Clara sentou-se no chão de terra coberto por pedregulhos e encostou-se na
placa suja. “Alguém vai aparecer, alguém vai me...”, mas quando ia terminar de
concluir sua frase, ela ouviu uma risada estridente, que soava como terror em
seus ouvidos.

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