quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Inimigos

Zonza, como se tivesse batido a cabeça em alguma coisa, Clara despertou do sono perturbado. Olhando para os lados, conseguiu ver uma área plana e extensa. Cabanas pequenas estavam enfileiradas uma do lado da outra e percorriam uma linha até o centro, onde se encontrava uma grande mesa redonda, que continha uma caixa de metal no meio dela. A caixa reluzia e faiscava, mas nada além disso acontecia.
Quando olhou para si mesma, percebeu que suas mãos e pés estavam atados a uma corda firme, que se estendia até uma árvore ressecada perto dela. Clara ainda zonza, cambaleou ao se levantar, e quando isso aconteceu, a corda na qual estava presa, esticou-se, e com isso uma espécie de alarme a sucedeu.
Vindo correndo na direção da menina, estava uma criatura pequena, igual a um humano, porém com grandes olhos acinzentados, barba comprida e orelhas enormes, que ultrapassavam a cabeça e com o andar saltitante. O pequeno homenzinho aproximou-se de Clara, rápido como um vulto e verificou se sua presa estava bem amarrada.
Analisando cada detalhe das cordas presas à menina e concluindo que tudo estava firme e seguro, ele voltou-se correndo para o local de onde tinha saído. Passados alguns minutos, Clara ouviu passos próximos e olhou a sua frente. O mesmo homenzinho que viera verificar as cordas estava voltando, mas agora acompanhado de outro homem. Este novo sujeito era idêntico ao primeiro, porém a expressão em sua face era mais dura e ríspida, além de ser um pouco mais alto que o outro. A criatura com o olhar rígido começou a observar Clara com curiosidade e logo se pronunciou:
- Qual seu nome garota? – O pequeno homem na qual Clara não tinha manifestado medo, e sim tranquilidade, tinha uma voz grossa, firme e respeitosa. Enquanto falava, a expressão em seu rosto era de sofrimento, mas ao mesmo tempo de orgulho.
- Clar...ra – gaguejou a menina.
- Muito bem Clara. É você mesmo que o senhor Scantam procura. A grande felizarda. – A criatura proclamou em tom zombeteiro. Mesmo não sabendo quem era Scantam, Clara enrijeceu-se e ficou aflita. – Bilad, vá avisar ao Conselho que a garota acordou e amanhã estará pronta. – O homem que acompanhava o sujeito rigoroso, e que agora tinha o nome de Bilad, saiu correndo para o centro, fez uma reverência para a caixa que ali se encontrava e continuou a correr para sua direita até desaparecer em uma tenda mais afastada das outras. A tenda era rosada e dentro dela, vultos pretos se moviam. Clara retirou seus olhos do homem que fora, e agora encarava os grandes olhos acinzentados do que parecia ser o chefe do Conselho. Não aguentando mais, perguntou:
- Onde estou? O que vão fazer comigo? Quem são vocês? – Clara disse com a voz rouca e seca por ficar tanto tempo sem falar.
- Fique quieta menina! Não me faça perder a paciência. Ter te buscado já foi um sacrifício. – O homem exclamou irritado.
Clara abaixou a cabeça lentamente e começou a se sentir constantemente confusa e tonta. Quando se moveu, cambaleou e quase caiu, porém sentiu mãos a segurando para que não se espatifasse no chão. Apoiando-se em dois homenzinhos, a garota foi levada para um aposento. Ainda tonta, mas estável, ela ouviu o chefe-conselheiro dizer – Deem comida e bebida à menina! Não podemos entregá-la assim para o chefe, temos ordens para trata-la bem. – Clara sentiu um arrepio em todo o corpo quando ele disse as palavras “Não podemos entrega-la assim para o chefe”.
Minutos depois, sentiu uma pessoa, menor que as demais chegar perto dela e estender-lhe um prato com pão assado e empadas de peixe, acompanhado de um copo com suco de alguma fruta com o cheiro fortemente doce. A menina não havia percebido quanto tempo se passara e tinha esquecido da fome. Quando sentiu o delicioso aroma quente daqueles alimentos, com os olhos brilhando, sem hesitar, Clara tomou os alimentos na mão e começou a saboreá-los com prazer. O suco no qual tinha achado enjoativo, agora refrescava sua boca numa sensação indescritível.
Satisfeita com a refeição que tinha recebido, Clara procurou a criança que tinha lhe servido, para agradecer, mas ela não estava mais lá. Ainda percebeu que o aposento que antes estava repleto de pessoas curiosas, agora estava silencioso e vazio. Todos haviam se retirado e trancado a porta da cabana. Levantando-se, a menina reparou que em cima da cama que tinha sido preparada para ela dormir, encontrava-se uma roupa: um vestido rosa claro que ia até os joelhos com compridas mangas. O vestido era bordado com uma renda delicada, e parecia ter sido feito à mão. Nos pés da cama estava um par de sapatilhas pretas delicadas.
Jogado no chão, como que voado da cama, tinha um bilhete amarelado:
         
 

Atordoada e chorando, Clara começou a se perguntar por que isso acontecera com ela. E levantando-se de um salto, ela foi fazer o que haviam mandado.



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