Zonza,
como se tivesse batido a cabeça em alguma coisa, Clara despertou do
sono perturbado. Olhando para os lados, conseguiu ver uma área plana
e extensa. Cabanas pequenas estavam enfileiradas uma do lado da outra
e percorriam uma linha até o centro, onde se encontrava uma grande
mesa redonda, que continha uma caixa de metal no meio dela. A caixa
reluzia e faiscava, mas nada além disso acontecia.
Quando
olhou para si mesma, percebeu que suas mãos e pés estavam atados a
uma corda firme, que se estendia até uma árvore ressecada perto
dela. Clara ainda zonza, cambaleou ao se levantar, e quando isso
aconteceu, a corda na qual estava presa, esticou-se, e com isso uma
espécie de alarme a sucedeu.
Vindo
correndo na direção da menina, estava uma criatura pequena, igual a
um humano, porém com grandes olhos acinzentados, barba comprida e
orelhas enormes, que ultrapassavam a cabeça e com o andar
saltitante. O pequeno homenzinho aproximou-se de Clara, rápido como
um vulto e verificou se sua presa estava bem amarrada.
Analisando
cada detalhe das cordas presas à menina e concluindo que tudo estava
firme e seguro, ele voltou-se correndo para o local de onde tinha
saído. Passados alguns minutos, Clara ouviu passos próximos e olhou
a sua frente. O mesmo homenzinho que viera verificar as cordas estava
voltando, mas agora acompanhado de outro homem. Este novo sujeito era
idêntico ao primeiro, porém a expressão em sua face era mais dura
e ríspida, além de ser um pouco mais alto que o outro. A criatura
com o olhar rígido começou a observar Clara com curiosidade e logo
se pronunciou:
-
Qual seu nome garota? – O pequeno homem na qual Clara não tinha
manifestado medo, e sim tranquilidade, tinha uma voz grossa, firme e
respeitosa. Enquanto falava, a expressão em seu rosto era de
sofrimento, mas ao mesmo tempo de orgulho.
-
Clar...ra – gaguejou a menina.
-
Muito bem Clara. É você mesmo que o senhor Scantam procura. A
grande felizarda. – A criatura proclamou em tom zombeteiro. Mesmo
não sabendo quem era Scantam, Clara enrijeceu-se e ficou aflita. –
Bilad, vá avisar ao Conselho que a garota acordou e amanhã estará
pronta. – O homem que acompanhava o sujeito rigoroso, e que agora
tinha o nome de Bilad, saiu correndo para o centro, fez uma
reverência para a caixa que ali se encontrava e continuou a correr
para sua direita até desaparecer em uma tenda mais afastada das
outras. A tenda era rosada e dentro dela, vultos pretos se moviam.
Clara retirou seus olhos do homem que fora, e agora encarava os
grandes olhos acinzentados do que parecia ser o chefe do Conselho.
Não aguentando mais, perguntou:
-
Onde estou? O que vão fazer comigo? Quem são vocês? – Clara
disse com a voz rouca e seca por ficar tanto tempo sem falar.
-
Fique quieta menina! Não me faça perder a paciência. Ter te
buscado já foi um sacrifício. – O homem exclamou irritado.
Clara
abaixou a cabeça lentamente e começou a se sentir constantemente
confusa e tonta. Quando se moveu, cambaleou e quase caiu, porém
sentiu mãos a segurando para que não se espatifasse no chão.
Apoiando-se em dois homenzinhos, a garota foi levada para um
aposento. Ainda tonta, mas estável, ela ouviu o chefe-conselheiro
dizer – Deem comida e bebida à menina! Não podemos entregá-la
assim para o chefe, temos ordens para trata-la bem. – Clara sentiu
um arrepio em todo o corpo quando ele disse as palavras “Não
podemos entrega-la assim para o chefe”.
Minutos
depois, sentiu uma pessoa, menor que as demais chegar perto dela e
estender-lhe um prato com pão assado e empadas de peixe, acompanhado
de um copo com suco de alguma fruta com o cheiro fortemente doce. A
menina não havia percebido quanto tempo se passara e tinha esquecido
da fome. Quando sentiu o delicioso aroma quente daqueles alimentos,
com os olhos brilhando, sem hesitar, Clara tomou os alimentos na mão
e começou a saboreá-los com prazer. O suco no qual tinha achado
enjoativo, agora refrescava sua boca numa sensação indescritível.
Satisfeita
com a refeição que tinha recebido, Clara procurou a criança que
tinha lhe servido, para agradecer, mas ela não estava mais lá.
Ainda percebeu que o aposento que antes estava repleto de pessoas
curiosas, agora estava silencioso e vazio. Todos haviam se retirado e
trancado a porta da cabana. Levantando-se, a menina reparou que em
cima da cama que tinha sido preparada para ela dormir, encontrava-se
uma roupa: um vestido rosa claro que ia até os joelhos com compridas
mangas. O vestido era bordado com uma renda delicada, e parecia ter
sido feito à mão. Nos pés da cama estava um par de sapatilhas
pretas delicadas.
Jogado
no chão, como que voado da cama, tinha um bilhete amarelado:
Atordoada
e chorando, Clara começou a se perguntar por que isso acontecera com
ela. E levantando-se de um salto, ela foi fazer o que haviam mandado.

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