quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Benet


Acordando com o barulho de alguém batendo a porta, Clara viu que ainda era cedo, não passava da madrugada. Abrindo os olhos lentamente observou que um pequeno vulto acinzentado estava atrás da cortina que tinha na parede. Apesar de o quarto não ter janelas, cortinas eram necessárias para dar ao ambiente um aspecto aconchegante, o que era difícil. A garota pulou da cama quando viu o vulto se mover e parou na frente da porta o banheiro para espiar melhor.

Clara reparou que o vulto era uma criança. Uma criança travessa e esperta, que naquele momento estava murmurando xingamentos e se enrolando na cortina atrapalhada.

A menina não pôde deixar de sorrir. Lembrou-se de sua prima Constantine, que era muito apegada a ela, sempre que ia visitá-la, agarrava Clara e não a soltava mais. Angustiada, Clara lutou para que aqueles pensamentos fossem embora e voltou a se concentrar na criança atrás da cortina.

Um gemido de alívio foi ouvido, e Clara arregalou ainda mais os olhos quando percebeu, que finalmente a criança iria sai detrás da cortina.

Uma pequena cabeça surgiu do tecido branco. Olhos assustados e brilhantes encontraram os de Clara e os dois ficaram se olhando durante alguns minutos, sem se moverem, respirando calmamente.

A criança tinha os mesmos olhos acinzentados dos homens anteriores. Mas a aflição e o medo sobressaíam daqueles olhos esperançosos. Percebendo que não havia perigo, o pequeno menino, que agora Clara identificava ser um menininho, saiu do esconderijo e aproximou-se da garota. O garoto era pequeno, batia no peito de Clara e tinha aparência semelhante a dos outros, porém muito mais jovial. Orelhas grandes e pontudas estavam coladas a sua cabeça e um sorriso travesso surgiu de sua boca, quando a criança decidiu falar:

- Olá! Prazer em conhecê-la moça. Sou Benet, o filho caçula da família Charivaz. – O menino apresentou-se se curvando e quase caiu quando o fez.

Clara deixou escapar uma risada engraçada. O garoto a olhou com relevância, e esperou a resposta para seu cumprimento.

- Olá! Meu nome é Clara. Eu venho... de cima. – Benet a olhou curioso e logo começou a fazer perguntas:

- O que você está fazendo aqui? Como é esse lugar de onde você vem? Você é parente de alguém daqui?...

- Não. – Clara o interrompeu. – Não sou parente de ninguém. Eu não sei por que estou aqui. Eu estava numa casa, e quando vi tinha caído num buraco. Então, seu povo me pegou e me trouxe para cá. – O menino ouviu tudo com atenção, e Clara prosseguiu. – Você. Você pode me ajudar a sair daqui. – Entusiasmada ela olhou para Benet, esperando que ele concordasse.

- Olha Clara, eu até posso te ajudar, mas eu teria de fazer um sacrifício, e esse sacrifício seria trair a minha raça e minha família. Ninguém sabe que estou aqui, é proibido entrar neste lugar. Radan reuniu toda a tribo e avisou que quem entrasse, pagaria caro. – O garoto parou, tomou fôlego e continuou. – Como anteriormente, meu povo nunca desobedeceu as ordens de Radan, então ele concluiu que não era necessário deixar vigias na porta. Sendo assim, resolvi desobedecer as ordens daquele velho antipático, e aqui estou.

Clara ficou impressionada com a coragem de Benet, e ainda percebeu que Radan, era o homem velho que falou com ela horas atrás.

Ela pensou diferente quando soube que o garoto teria que trair a confiança de seu povo para ajudá-la. Mas então, pensou em sua própria família, no quanto eles deveriam estar preocupados e apavorados. Sem hesitar, Clara disse:

- Benet, sei que trair seu povo e me ajudar a sair é um pedido muito audacioso. Mas, eu também tenho uma família, e ela deve estar muito preocupada comigo. Eu te imploro Benet, por favor, ajude-me a ir embora. – Clara suplicou a Benet que a ajudasse. O garoto mordeu o lábio com os olhos baixos e logo os levantou dizendo:

- Eu vou te ajudar Clara. Apesar de tudo, é meu sonho conhecer o mundo acima do meu. Agora, você terá que prometer que me apresentará a esta nova dimensão de mundo. – Com os olhos brilhando, o menino esperou que Clara aceitasse a condição.

- Tudo bem, em troca de você me tirar daqui, eu te levo ao meu mundo. – E com um aperto de mãos, os dois selaram a promessa.

 

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