Acordando com o barulho de alguém batendo a porta, Clara viu
que ainda era cedo, não passava da madrugada. Abrindo os olhos lentamente
observou que um pequeno vulto acinzentado estava atrás da cortina que tinha na
parede. Apesar de o quarto não ter janelas, cortinas eram necessárias para dar
ao ambiente um aspecto aconchegante, o que era difícil. A garota pulou da cama
quando viu o vulto se mover e parou na frente da porta o banheiro para espiar
melhor.
Clara reparou que o vulto era uma criança. Uma criança
travessa e esperta, que naquele momento estava murmurando xingamentos e se
enrolando na cortina atrapalhada.
A menina não pôde deixar de sorrir. Lembrou-se de sua prima
Constantine, que era muito apegada a ela, sempre que ia visitá-la, agarrava
Clara e não a soltava mais. Angustiada, Clara lutou para que aqueles
pensamentos fossem embora e voltou a se concentrar na criança atrás da cortina.
Um gemido de alívio foi ouvido, e Clara arregalou ainda mais
os olhos quando percebeu, que finalmente a criança iria sai detrás da cortina.
Uma pequena cabeça surgiu do tecido branco. Olhos assustados e
brilhantes encontraram os de Clara e os dois ficaram se olhando durante alguns
minutos, sem se moverem, respirando calmamente.
A criança tinha os mesmos olhos acinzentados dos homens
anteriores. Mas a aflição e o medo sobressaíam daqueles olhos esperançosos. Percebendo
que não havia perigo, o pequeno menino, que agora Clara identificava ser um
menininho, saiu do esconderijo e aproximou-se da garota. O garoto era pequeno,
batia no peito de Clara e tinha aparência semelhante a dos outros, porém muito
mais jovial. Orelhas grandes e pontudas estavam coladas a sua cabeça e um
sorriso travesso surgiu de sua boca, quando a criança decidiu falar:
- Olá! Prazer em conhecê-la moça. Sou Benet, o filho caçula da
família Charivaz. – O menino apresentou-se se curvando e quase caiu quando o
fez.
Clara deixou escapar uma risada engraçada. O garoto a olhou
com relevância, e esperou a resposta para seu cumprimento.
- Olá! Meu nome é Clara. Eu venho... de cima. – Benet a olhou
curioso e logo começou a fazer perguntas:
- O que você está fazendo aqui? Como é esse lugar de onde
você vem? Você é parente de alguém daqui?...
- Não. – Clara o interrompeu. – Não sou parente de ninguém. Eu
não sei por que estou aqui. Eu estava numa casa, e quando vi tinha caído num
buraco. Então, seu povo me pegou e me trouxe para cá. – O menino ouviu tudo com
atenção, e Clara prosseguiu. – Você. Você pode me ajudar a sair daqui. –
Entusiasmada ela olhou para Benet, esperando que ele concordasse.
- Olha Clara, eu até posso te ajudar, mas eu teria de fazer um
sacrifício, e esse sacrifício seria trair a minha raça e minha família. Ninguém
sabe que estou aqui, é proibido entrar neste lugar. Radan reuniu toda a tribo e
avisou que quem entrasse, pagaria caro. – O garoto parou, tomou fôlego e
continuou. – Como anteriormente, meu povo nunca desobedeceu as ordens de Radan,
então ele concluiu que não era necessário deixar vigias na porta. Sendo assim,
resolvi desobedecer as ordens daquele velho antipático, e aqui estou.
Clara ficou impressionada com a coragem de Benet, e ainda percebeu
que Radan, era o homem velho que falou com ela horas atrás.
Ela pensou diferente quando soube que o garoto teria que trair
a confiança de seu povo para ajudá-la. Mas então, pensou em sua própria
família, no quanto eles deveriam estar preocupados e apavorados. Sem hesitar,
Clara disse:
- Benet, sei que trair seu povo e me ajudar a sair é um pedido
muito audacioso. Mas, eu também tenho uma família, e ela deve estar muito
preocupada comigo. Eu te imploro Benet, por favor, ajude-me a ir embora. –
Clara suplicou a Benet que a ajudasse. O garoto mordeu o lábio com os olhos
baixos e logo os levantou dizendo:
- Eu vou te ajudar Clara. Apesar de tudo, é meu sonho conhecer
o mundo acima do meu. Agora, você terá que prometer que me apresentará a esta
nova dimensão de mundo. – Com os olhos brilhando, o menino esperou que Clara
aceitasse a condição.
- Tudo bem, em troca de você me tirar daqui, eu te levo ao meu
mundo. – E com um aperto de mãos, os dois selaram a promessa.
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