terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Kaily


                          A Menina Desaparecida - 9


Os dois começaram a se debater, lutando contra as pegajosas sombras que não se dissipavam, apesar da desenvoltura deles. Tentando gritar, Benet e Clara abriam a boca, mas não conseguiam mais do que um grunhido sufocado. Eles olhavam um para o outro, mas não conseguiam ver nada! Apenas sentiam. Sentiam que estavam sendo torturados, amassados, envoltos pelo terror. Mas então um barulho único e estridente tomou conta do ambiente e tudo ficou silencioso.
Clara caiu no chão dolorosamente, como se tivesse sido prensada contra ele. Fechou os olhos, apertando-os impulsivamente, e sentiu sua respiração ofegante. Percebeu que não havia mais nada atormentando-a, apenas a sensação dolorosa que ainda tomava conta de seu corpo. Suspirou aliviada, e virou a cabeça para olhar para Benet.
O garoto encontrava-se no chão também, respirando com dificuldade. Ele estava paralisado, com medo de que se se movesse, a dor aumentaria. Tentou virar a cabeça, mas não conseguiu. Clara notou que ele estava mais distante do que da última vez que o vira antes de cair, mas se esforçando, rastejou até o menino, para ajudá-lo.
Quando chegou perto dele, ofegante e ainda com dores pelo corpo, Clara sussurrou no ouvido de Benet – Está tudo bem, não tem mais nada aqui. Agora tente respirar devagar, e tente se mover. – O menino fez o que Clara pediu e logo se mexeu pacientemente. Respirou fundo e conseguiu erguer-se.
- O que foi aquilo? Acho que se você não tivesse vindo até mim e falado que estava tudo bem, eu teria ficado imóvel não sei por quanto tempo... – O garoto começou a falar rapidamente. – Obrigado Clara.
Então Benet aproximou-se e abraçou a menina que tinha o confortado com tão poucas palavras. Clara retribuiu o abraço carinhosamente e disse “Estamos juntos, Benet”.
Ainda com muito medo e assustados, os dois amigos prosseguiram a viagem. Eles não tinham ideia do que eram aquelas sombras que haviam os atacado. Eles só queriam sair daquele lugar logo.
Benet num momento pensativo, pensou nos pais, no povo, e no pouco conforto e segurança que tinha na sua aldeia. Refletiu e disse para si mesmo “Eles estão bem. Ficarão preocupados, mas ficarão bem. Eu preciso ir até o mundo de Clara, preciso de um novo lar para mim e para minha família, prometo a mim mesmo, se der tudo certo, eu volto para buscá-los”.
- O que foi aquilo, realmente? Você não conhece nada que já tenha atacado o seu povo? – Clara perguntou quebrando o silêncio.
- Não que eu saiba. Tudo que te contei anteriormente foram conversas de meu pai com minha mãe, e algumas coisas que eu ouvia escondido dos cantos da cidade.
- Precisamos encontrar alguma coisa para nos defender, Benet. Não sobreviveremos a um próximo ataque. Seja lá o que aquelas coisas são, já sabem da minha existência e da nossa fuga. E o... Scantam vai mandá-los novamente atrás de nós! – Clara com a expressão dura, exclamou a Benet.
- Sim, precisamos achar alguma arma, feitiço, sei lá. Precisamos de algo que nos mantenham vivos. Mas... Espera! Acho que sei a quem podemos pedir ajuda. – E com um salto de esperança, Benet começou a puxar Clara pela mão, apressadamente.
                              
                                              ***
Sem entender o entusiasmo e a repentina exaltação de Benet, Clara o seguiu a passos rápidos. E quando não conteve mais a curiosidade, a menina parou instantaneamente e com um puxão no casado de Benet, ela disse:
- Benet, por favor, me explica onde estamos indo? Quem pode nos ajudar?
- Ta bom... É o seguinte, uma vez minha mãe contou para mim uma história sobre uma feiticeira, que se não me engano se chama... Kaily. Essa feiticeira é muito poderosa, e ela trabalha para o Scantam, em troca de favores. Porém, ela também negocia com outras pessoas. Qualquer tipo de criatura, desde que em troca de seu poder, ela receba algo muito valioso. Acho que ela pode nos ajudar! – O garoto exclamou ansioso.
- Também acho, mas não temos nada para dar em troca dos seus feitiços. Ela não aceita algo, como... trabalhos serventes por algum tempo? Sei lá, poderíamos servi-la por alguns dias e como pagamento ela nos empresta algo que seja útil para nos defendermos.
- Sua ideia é ousada, mas não acredito que Kaily vá nos emprestar seu poder em troca de alguns trabalhos domésticos. – Benet falou pensativo.
Clara percebeu o quão maduro seu mais novo amigo era. Ele sabia lidar com situações perigosas sem se apavorar. Além de ser muito inteligente, Benet era astuto e corajoso.
- Nunca perguntei, quantos anos você tem Benet?
- 12, por quê? – O menino perguntou interessado com a mudança de assunto repentina de Clara.
- Nada não, apenas curiosidade. Você parece mais velho do que realmente é.
- Não é a primeira que diz isso. Todos dizem que sou maduro para minha idade. Eu gosto disso. –Benetcontou, orgulhoso de si mesmo.
- Enfim, você acha que estamos muito longe dessa tal de Kaily?
- Acho que não, uma hora no máximo – Benet falava para Clara, examinando o mapa que tinha pego de seu pai. – Conforme o que minha mãe me disse, o lugar onde a feiticeira Kaily mora, é perto da Superfície Escura – O garoto apontou para o local. – Estamos... perto.
                                        
                                            ***
Logo após algum tempo de caminhada, os dois chegaram a uma planície arruinada. O lugar era enevoado, e tinha paredes rochosas de cor marrom, além de pequenas árvores subterrâneas, que tinham espinhos ao invés de folhas. O lugar era assustador. Apenas o barulho do farfalhar do vento abafado era ouvido, e alguns sussurros intimadores, algo como pequenos pés se movimentando desajeitadamente.
Os dois viram alguns vultos pretos se locomovendo de um lado para o outro, mas aliviaram-se quando viram que eram apenas suas silhuetas nas paredes de pedra.
Seguiram constantemente, de vez em quando olhando para trás, tendo a impressão de que estavam sendo seguidos por alguém. Benet estava tremendo, ele tentava não demonstrar à Clara o medo que sentia por estar perto da Superfície Escura. Ele ainda não havia contado o que sabia sobre ela para a menina, e percebeu que teria de fazê-lo mais cedo ou mais tarde.

Os dois prosseguiram cada vez mais lentamente, até chegarem perto de uma imensa parede de mármore cor de grafite que se estendia dos dois lados para o alto. Eles não conseguiam ver o fim dela, mas imaginaram que era bem alto.


Colada na parte mais baixa do mármore, próximo a altura de Clara, estava uma placa do formato de um losango, não era muito grande e parecia antiga. Benet passou a mão nela e retirou o pó que havia. Sentiu a textura áspera da pedra queimar a sua mão de tão gélida. Quando terminou de tirar a poeira, Clara conseguiu decifrar as palavras que estavam escritas na placa:




E com um grito abafado Clara percebeu que finalmente, eles haviam chegado à casa da poderosa Feiticeira Kaily.


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